Inclusão da pessoa com deficiência no mercado de tecnologia: dez anos depois

Este texto revisita dois artigos que publiquei em 2015: Reflexão: a inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho e Inclusão ou imposição?.

Em dezembro de 2015 escrevi dois textos curtos, quase no mesmo fôlego. Um deles nasceu de uma pergunta que se repetia nos grupos de estudantes com deficiência visual: “o professor está usando uma ferramenta de diagramas; existe alguma forma de nós fazermos o mesmo?”. O outro nasceu de uma entrevista sobre inclusão no mercado de trabalho que me deixou com vontade de continuar a conversa. Dez anos depois, reli os dois e resolvi juntá-los num só. Não para corrigir o que eu pensava, mas para medir a distância entre aquele momento e este.

O que eu defendia em 2015

A ideia central era simples: inclusão não é a mesma coisa que imposição. A cota abre a porta, mas não garante que a pessoa seja vista como profissional. Eu via colegas contratados para cumprir número e estacionados em funções sem desafio, sem plano de carreira, sem que ninguém esperasse deles nada além de estar ali. Isso não é inclusão. É uma vaga ocupada.

O segundo ponto era a competência. No texto sobre a sala de aula, eu argumentava que uma pessoa com deficiência visual tem a mesma capacidade de abstração que qualquer colega; o que muda é o caminho. Um diagrama UML é uma notação para comunicar. Se eu chego ao mesmo modelo por meio de uma linguagem específica de domínio, de código ou de uma boa história de usuário, o objetivo foi cumprido. Reprovar alguém porque não desenhou caixas e setas é confundir o meio com o fim.

E o terceiro era a autonomia. Eu queria ser avaliado pelo que entrego, com as ferramentas que funcionam para mim, sem depender de um favor para fazer o básico do meu trabalho.

O que mudou em dez anos

Muita coisa. Vou me ater ao que vivi na prática.

O trabalho remoto virou normal. Em 2015, trabalhar de casa era exceção negociada. Hoje é uma configuração como outra qualquer. Para mim, isso eliminou uma camada inteira de atrito: deslocamento, escritórios desconhecidos, salas de reunião sem qualquer referência. Minha estação de trabalho é a mesma todos os dias, e ela funciona.

Acessibilidade passou a vir de fábrica em muito mais lugares. Não em todos, e volto a isso mais adiante. Mas as ferramentas que uso o dia inteiro, de edição de documentos a chamadas de vídeo e portais de nuvem, hoje têm acessibilidade tratada como requisito de produto, com equipes dedicadas e testes com leitores de tela. Em 2015, cada versão nova era uma loteria. Hoje a loteria ainda existe, mas as chances melhoraram bastante.

A IA generativa se tornou tecnologia assistiva. Esse é o ponto que mais mudou meu dia a dia, e quero descrevê-lo sem exagero. Continuo usando o NVDA como leitor de tela; ele é a base de tudo. O que mudou é o que está em cima dessa base. Alguns exemplos concretos:

  • Recebo um diagrama de arquitetura em imagem, sem descrição. Antes, eu pedia a alguém para me explicar. Hoje peço ao Copilot uma descrição estruturada dos componentes e das conexões, e sigo a reunião no mesmo ritmo dos outros.
  • Uma planilha com dezenas de abas e fórmulas cruzadas é lenta de navegar com leitor de tela. Pergunto o que preciso saber em linguagem natural e vou direto à célula que importa.
  • Agentes executam tarefas de várias etapas, como reunir informações de diferentes fontes, preparar um rascunho de documento ou verificar configurações, enquanto eu reviso o resultado em vez de operar cada tela.
  • Sites mal construídos, com botões sem rótulo e formulários confusos, ainda existem. A diferença é que agora consigo, em muitos casos, entender a página e agir mesmo assim.

Nada disso me tornou um profissional diferente. O que aconteceu foi que a distância entre o que eu sei fazer e o que eu consigo fazer sozinho diminuiu. Em 2015 eu escrevia sobre chegar ao mesmo resultado por outro caminho. Em 2026 o caminho ficou mais curto.

Há também uma mudança de postura nas organizações. Há cerca de três anos ajudo a liderar o pilar de acessibilidade na empresa onde trabalho, e vejo pessoas que nunca pensaram no assunto buscando aprender. Não é unanimidade, mas é uma conversa que em 2015 eu tinha que iniciar sozinho e hoje encontro em andamento.

O que ainda não mudou

Aqui é onde a honestidade importa mais do que o otimismo.

Processos seletivos continuam inacessíveis. Plataformas de candidatura com componentes que o leitor de tela não enxerga, testes técnicos cronometrados em ambientes que não permitem as ferramentas do candidato, entrevistas em que a primeira pergunta é sobre a deficiência e não sobre a experiência. Há gente competente sendo eliminada no primeiro clique. A empresa nunca fica sabendo, porque a pessoa simplesmente não consegue chegar até a segunda etapa.

A baixa expectativa persiste. É sutil. Aparece quando alguém se surpreende por eu conduzir uma reunião técnica, quando a demanda mais complexa vai para outra pessoa por precaução, quando a pergunta “você consegue fazer isso?” vem antes de qualquer conversa sobre como. A cota trouxe muita gente para dentro, mas o teto continua baixo para quem entrou por ela. Promoções, liderança e projetos estratégicos seguem sendo raros.

Acessibilidade ainda é tratada como favor. Quando um sistema interno não funciona com leitor de tela, a solução mais comum continua sendo “peça para alguém fazer por você”. Isso resolve o dia e quebra a autonomia. Uma pessoa que precisa de um colega para preencher um relatório de despesas não é vista como igual, por mais que a intenção seja boa. Acessibilidade é requisito, como segurança ou desempenho. Quando é opcional, quem paga a conta é sempre a mesma pessoa.

E há um risco novo. A IA generativa que me ajuda também está sendo usada em triagem de currículos e em avaliações automáticas. Se esses sistemas aprendem com um histórico em que pessoas com deficiência foram sistematicamente subestimadas, eles vão reproduzir a subestimação com mais velocidade. A ferramenta que amplia minha autonomia pode, em outra mão, fechar a porta antes de eu bater.

Dez anos depois, a mesma pergunta

Em 2015, entre uma edição e outra do Entidv, que reuniu mais de quinhentos profissionais de TI com deficiência visual de todo o país, eu terminava um dos textos dizendo que não pretendia chegar a uma conclusão, mas abrir uma conversa. Mantenho a proposta. A tecnologia avançou mais do que eu imaginava; a cultura, menos do que eu esperava. O que separa uma coisa da outra são decisões de pessoas: quem escolhe a plataforma de recrutamento, quem define o critério do teste técnico, quem decide se a demanda difícil vai para mim ou para o colega.

Então deixo o convite. Se você contrata, teste o seu processo seletivo com um leitor de tela antes de publicar a próxima vaga. Se você lidera, entregue o projeto difícil e cobre o resultado. Se você desenvolve, trate acessibilidade como bug, não como sugestão. E se você é uma pessoa com deficiência e trabalha com tecnologia, conte nos comentários o que mudou e o que não mudou na sua experiência nesses dez anos. Em 2035 quero voltar a este texto e ter uma lista de “o que ainda não mudou” bem menor.

Até a próxima!

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